domingo, 30 de novembro de 2014

Sobre sobreviver

Não é viver!
É não viver!
É se arrastar
e não se arriscar.
não pensar
não querer
não tentar
não ousar
não andar

Não chame atenção, para não atrair perigo!
Não tenha sucesso, para não falir!
Não comece um projeto, para não fracassar!

 Enfim... Sobreviver é ao mesmo tempo simples e complexo
É seguir uma série de nãos, que anulam a si mesmos de tempos em tempos
É preciso ter muito domínio sobre relações lógicas de negação interna para sobreviver
Mas ter muito domínio pode atrair atenção, levar ao sucesso e ser um projeto
Fodeu

Tem gente que não vive, sobrevive
eu prefiro não sobreviver e continuar meu sobrevoo...


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Microconto nº 2

Era vidente,
Não viu o presente,
Cagou no passado
E reclamou do futuro

Microconto

Míriam aceita Jesus
Renega as bi
E continua achando que sabe da verdade

domingo, 9 de novembro de 2014

For matar

Me faço e me desfaço
Em caixinhas me encaixo
Me mato
Me formato
No quadro me enquadro

É o que dizem que preciso
É o que acho que é preciso
Mas impreciso
Não preciso
Mais impreciso
Não há

Há verso, há meio, há versão, mediação e meditação
Não vejo porque morrer pela forma
Há forma
Mesmo sem formato
Formas existem, antes do quadro
Enquadrar é excluir e impedir
Há quem precise de um quadro
Mas a forma que não precisa
Informa mais que mata, não formata mesmo em forma

Não me faço, me desfaço todos os dias
Em caixinhas não me encaixo, enfeito com bolinhas
Não me mato
Pelo formato
No quadro pinto uma simples poesia...

Little Boxes - https://www.youtube.com/watch?v=2_2lGkEU4Xs

domingo, 10 de agosto de 2014

La luna

Que dancem nuas as bruxas
Sob a luz da linda lua
Celebrando a união de todos os corpos

Que dancem juntos os amantes
E os bailarinos e você e eu
Celebrando a união de todos os corpos

Que dancem em roda
Em órbita os astros
Celebrando a união de todos os corpos

Que dance no céu ela
A lua que rege e fascina
Promovendo e nos lembrando a união de todos os corpos

Dancemos à luz da lua,
Que volta todas as noites
Para brindar as fases, os ciclos
E que a dança nunca pare
Brilla la luna, mira que bela 

domingo, 18 de maio de 2014

Grito

Alegria
Tristeza
Dor
Raiva
Surpresa
Todos gritam
Mesmo quem não grita
O grito que não sai
Enforca quem o prende
O que sai mal dirigido
Ensurdece sem motivo
Tem grito que é planejado
Tem grito que sobe do peito sem permissão
Mas todo grito é desabafo, expressão e descompressão
Grite! Permita-se! Divirta-se! GRITE!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O pé, a posição e o caminho



"Coisas mudaram" - disse
A primeira - e óbvia - reação
Foi voltar atrás, o pé atrás
Mas foi assim - reativo, instintivo
Sem raciocínio
Como assim mudou o caminho?
Era para ser a outra direção.
Era para pisar em outro galho.
Era para enxergar pássaros azuis!
Por que nenhum pássaro aqui é azul?
Por que raios os planos mudaram?
Volto para o caminho que já passei, passo atrás
O pé direito volta para a linha já traçada
Insegurança? - Que nada, sigo planos
Planos cuidadosamente planejados
Anos e anos dedicando-se aos mínimos detalhes
QUE DETALHES?
DE UM FUTURO QUE NUNCA EXISTIU?
QUER MANDAR NO TEMPO TAMBÉM?
Calmamente o pé esquerdo volta a tatear o caminho desconhecido
De fato, nenhum pássaro daqui é mesmo azul
Mas há tantos e de tantas cores
Nunca pude imaginar
Pé ante pé - esquerda, direita, esquerda, direita
Num traçar de novos caminhos
mudar de direção, manter a mudança, mudar novamente
Ouvem-se melodias
Cuidadosamente calculadas para AGRADAR até aos ouvidos mais leigos
Cuidadosamente calculadas para AFETAR até aos ouvidos mais leigos
Sussurram
"Por acaso você já parou para pensar que caminhar é mudar de lugar a cada passo?"


domingo, 13 de abril de 2014

A volta


Eis que um dia resolvo voltar
Decido que talvez valha a pena voltar a tentar
Decido que talvez seja a hora de admitir
Quanto amor há aqui
E quanto amor houve
E quanto sempre haverá
Porque é esse o sentimento que me rege
Por mais que tentem contrapô-lo à racionalidade
Da qual nunca abrirei mão
Decidi parar de esconder de mim
O que nunca foi uma dúvida real
Todos os que agem
Não importa se por impulso ou por estratégia
Sempre agirão pela paixão
Pois não há ação sem afetação, sem paixão
E não há amor que não afete, que não afeiçoe, que não apaixone
A vontade de gritar, de chorar
Esconde a necessidade de explodir em poesia de prosa, em prosa poética
Ou no que quer que uma prosa gostosa possa trazer em flerte apaixonado com um poeta...

Motivada por um desafio: "Divagar"

Sinto, não sei
Talvez não sinta
O sentido de sentir é outro
Mas talvez não seja
Me preocupo em não saber
Mas querer saber me parece querer demais
E querer demais é complicado
Complicado de querer
Complicado de não ter
Mas quem tem?
Será que alguém?
Ah, já foi
Senti, e sei.